PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO JÀ CONSUMIU R$2,5 BILHÕES
Desde o seu início, em 1979, foram investidos
no Programa Nuclear da
Marinha (PNM) do Brasil cerca de R$ 2,5 bilhões. E são
necessários, apenas no PNM, o aporte de mais de R$ 3,6 bilhões para a pesquisa
e desenvolvimento de todo o programa até a operação do o primeiro Submarino
com Propulsão Nuclear
(SN-BR) brasileiro. Este programa tem tudo a ver com a
Região Metropolitana de Sorocaba (RMS). A principal unidade do PNM é o Centro
Experimental Aramar, localizado na cidade de Iperó, a quinze quilômetros do
município de Sorocaba.
As informações sobre os valores do PNM foram divulgadas pelo Centro de Comunicação Social da Marinha (CCSM), que respondeu a perguntas do Cruzeiro do Sul enviadas por e-mail em 6 de janeiro deste ano. As respostas, enviadas em 27 de fevereiro, são assinadas pelo diretor do CCS, contra-almirante José Roberto Bueno Junior.
Uma das questões aborda os cortes do orçamento da União planejados pela
presidente Dilma Rousseff (PT) desde o início do seu segundo mandato, em 1º de
janeiro passado, e pergunta se o enxugamento de recursos federais atingiu o
Programa Nuclear da Marinha.
"De acordo com as informações disponíveis até o momento, a programação de recursos segue o planejamento, não havendo contingenciamentos (cortes)", respondeu o contra-almirante Bueno Junior.
"De acordo com as informações disponíveis até o momento, a programação de recursos segue o planejamento, não havendo contingenciamentos (cortes)", respondeu o contra-almirante Bueno Junior.
A programação de recursos corresponde à
liberação pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2007, de R$
1,040 bilhão programados para serem repassados à Marinha em oito anos. A
autorização dada por Lula previa repasses de R$ 130 milhões ao ano. É esta
programação, segundo a Marinha, que segue o planejamento.
A possibilidade de este comportamento em
liberação de recursos se manter vai ser confirmada ou não com a votação, no
Congresso, da Lei
Orçamentária Anual (LOA) para 2015. A LOA vai dizer quais
os setores do governo sofrerão cortes no aporte de recursos.
Conjunto de obras
Até agora, segundo o contra-almirante Bueno Junior,
foram realizados em Aramar testes operacionais em turbogeradores; montagem
eletromecânica da Unidade Piloto de Hexafluoreto de Urânio (Usexa); mobilização
do Laboratório de Materiais Nucleares para produzir o combustível nuclear
do Laboratório de
Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), além de obras
de infraestrutura. Atualmente, estão em curso os serviços de construção civil
do Labgene.
A Usexa e o Labgene estão entre as principais
unidades de Aramar. A Usexa é o local onde se trabalha o urânio na forma de
gás. O Labgene é a construção onde está prevista a instalação do reator
nuclear. Outra unidade de ponta em Aramar é o local onde ficam as
ultracentrígugas, máquinas que produzem o urânio enriquecido, no complexo do
prédio utilizado para atividades de auditório e recepção de autoridades.
Para o reator nuclear de Aramar ficar pronto,
segundo a Marinha, "falta, basicamente, o comissionamento do Labgene, cujo
início está previsto para julho de 2017 e que, ainda requer o investimento de
cerca de R$ 450 milhões." A Força acrescenta que "com o término das
obras civis, ocorrerá a montagem eletromecânica de sistemas e equipamentos do
reator".
O termo comissionamento é usado pela Marinha
como forma de se referir às condições de operação do reator em conformidade com
as normas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), no que diz respeito a
licença ambiental, e também a características técnicas e de funcionamento do Labgene.
Julho de 2017 é, portanto, na programação da Marinha, a previsão para o reator
entrar em operação.
Até 2025
De acordo com a Marinha, "o
comissionamento do Labgene está previsto para ser concluído até dezembro de
2018". Quanto ao Submarino com Propulsão Nuclear (SN-BR), acrescenta o
contra-almirante, "o início da construção está previsto para 2017, a sua
prontificação para 2023 e sua operacionalidade plena para 2025".
Lula fez visita oficial a Aramar em 10 de junho
de 2007. A presidente Dilma, no seu primeiro mandato, não esteve no centro de
pesquisas da Marinha. O contra-almirante Bueno Junior afirma que não há
informações acerca da visita programada de Dilma a Aramar, em 2015.
Execução dos projetos sofreu atraso de 10 anos
Quando Lula anunciou a liberação de recursos em
2007, os projetos para Aramar estavam dez anos atrasados em termos de ritmo de
andamento. A avaliação foi da Marinha na época, e esse diagnóstico tinha
relação com os recursos orçamentários.
Até então, os recursos destinados o Programa
Nuclear da Marinha eram da ordem de R$ 40 milhões ao ano. Uma cifra
"absolutamente insuficiente", na avaliação da Força, e que dava
condições de manter o programa em estado "praticamente vegetativo".
No dia em que visitou Aramar, Lula disse o que
os militares da Marinha queriam ouvir: "Se está faltando dinheiro, agora
não vai faltar mais dinheiro porque nós vamos colocar o dinheiro
necessário." Ele ainda arriscou projeções futuras, sintonizadas com os
planos da Marinha: "Por que não sonhar grande e dizer que nós queremos
chegar até à possibilidade de ter um submarino nuclear?"
O comandante da Marinha na época,
almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura Neto, comemorou: "Com essa
injeção de ânimo que o presidente nos deu e com essa promessa de recursos, nós
retomamos o ciclo natural de crescimento do programa nuclear."
Naquele dia, Lula também elogiou Aramar: "Esse projeto pode ser embrião para tudo o que precisamos do ponto de vista da produção de energia nuclear e do ponto de vista da produção de energia (elétrica)."
Naquele dia, Lula também elogiou Aramar: "Esse projeto pode ser embrião para tudo o que precisamos do ponto de vista da produção de energia nuclear e do ponto de vista da produção de energia (elétrica)."
História
Desde o início em 1979, outro período marcante
foi a inauguração de Aramar em 1988. Na década de 1980, fontes oficiais
mencionaram os anos de 1995, 2000, 2005, 2006 e 2007 para a conclusão do
submarino movido a propulsão nuclear.
A época de dificuldades orçamentárias para o
programa começou no fim de 1993 e durou até 2007, na visita de Lula. O
idealizador do Programa Nuclear da Marinha foi o vice-almirante Othon Luiz
Pinheiro da SIlva, atualmente na reserva.
Para o desenvolvimento de pesquisas que
resultaram na construção de Aramar, a Marinha teve a colaboração do Instituto
de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas (IPT) e do Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA).
Outro episódio marcante: em 1982, Othon e seu grupo de técnicos exibiram a primeira operação de enriquecimento de urânio do Brasil com uma ultracentrífuga. O projeto foi idealizado e executado por ele e sua equipe. Esse é um conhecimento científico de importância estratégica, que um país não transfere a outro.
Outro episódio marcante: em 1982, Othon e seu grupo de técnicos exibiram a primeira operação de enriquecimento de urânio do Brasil com uma ultracentrífuga. O projeto foi idealizado e executado por ele e sua equipe. Esse é um conhecimento científico de importância estratégica, que um país não transfere a outro.
Protestos
Em 19 de novembro de 1987, 10 mil pessoas protestaram contra Aramar no centro de Sorocaba. Outros protestos ocorreram naquele período em cidades da região de Sorocaba. A mobilização popular foi impulsionada por sentimento antinuclear, reação contra a bomba atômica e preocupação com a segurança na região.
Aquela era uma época em que o debate sobre
energia nuclear estava em grande evidência. Um ano antes, em 1986, ocorrera o
acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, uma das repúblicas que formavam a
antiga União Soviética. E em 1987 um acidente com Césio-137, em Goiânia (GO),
no Brasil, completou a rejeição popular a tudo o que dizia respeito a energia
nuclear.
Em sintonia com o sentimento popular, o Cruzeiro
do Sul liderou a campanha "Aramar não vale a pena". Há três anos,
quando o protesto de 1987 no centro de Sorocaba completou 25 anos, o então
editor-chefe do jornal, jornalista Cláudio Oliveira, avaliou: "A nossa
cobertura foi absolutamente impecável do começou ao fim." Na sua visão, a
campanha era na verdade contra a bomba atômica.
Nota DefesaNet

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